Até agora (so far, so good)

UM PRIMEIRO MOMENTO

senha de acesso propõe o desafio de uma pesquisa coreográfica a partir das relações entre corpo e memória sem ceder ao resgate de lembranças o status de condutor do processo criativo. Isso já estava dito no projeto inicial da pesquisa e fiz questão de ressaltá-lo sempre que possível ao longo desses quase três meses de residência.

A relação entre corpo e memória que nos interessa nesta pesquisa é a das impressões, reações que se fazem presentes quando tentamos acessar nossas lembranças. Ou seja, mais do que o conteúdo dessas lembranças, é o que elas provocam em nossos corpos o material essencial da pesquisa, a tal “senha de acesso”.

Assim sendo, os primeiros encontros – chamo-os assim, pois não os entendo enquanto ensaios – aconteceram de maneira bastante despretensiosa, o que de fato acabou se tornando o tom de todos os outros. Conversamos muito sobre que memória era essa que interessava à pesquisa, lemos e compartilhamos referências diversas (livros, poemas, músicas, obras de arte).

Falei bastante sobre o livro de Daniel Schacter, The seven sins of memory, no qual o autor desmistifica a ideia de que a memória funciona como um baú onde as lembranças são guardadas intactas. E logo vieram outros autores em nosso auxílio, tais como Waly Salomão e seu entendimento de memória enquanto ilha-de-edição, além de Clarice Lispector e David Lynch, que utilizam o ato da pesca como metáfora do processo criativo.

MEMORÁVEIS

Em suma, os primeiros encontros foram de muita conversa, algo um tanto incômodo para um processo criativo em dança. Pairava no ar a pergunta: “Quando afinal começaremos a dançar?”.

Confesso que já tinha essa clareza em mente, a de que a dança viria em seu momento. Precisávamos, sim, ser pacientes e deixar que o fluxo dos encontros e das leituras e discussões se desse e gerasse alguma semente mais movente. Precisávamos acreditar nisso.

Então, comecei a propor exercícios, experimentos que chamo de “memoráveis”, na tentativa de sensibilizar nossos corpos-mentes, aguçar nossos sentidos. Memoráveis são compostos de instruções muito precisas sobre o que e como fazer; são tarefas a serem seguidas, completadas. Alguns visam a execução da tarefa ali naquele momento, na frente daquele que o concebeu (memoráveis cênicos). Outros são mais introspectivos e de caráter mais individual, para serem executados na rotina do dia-a-dia (memoráveis vivenciais).

ESVAZIAR A BOLSA. REVELAR OS PERTENCES

Memoráveis tais como #1 e #2 (hoje temos um banco com 13 deles[1]) foram o ponto de partida para uma série de experimentações dentro e fora do studio, que possibilitaram a descoberta e a invenção dos primeiros movimentos na direção de uma possível dança.

Os mesmos memoráveis ainda foram os responsáveis por dois elementos que se fariam presentes na própria configuração coreográfica: a nocão de acúmulo/esvaziamento e a caminhada. O duplo acúmulo/esvaziamento está em praticamente todos os momentos da coreografia: nas palavras escritas no corpo da Monica, nos sacos plásticos do Aluisio, nas sequências de movimento do Fábio, na minha manipulação do filme plástico e, até mesmo, nas caminhadas que dão início ao trabalho. A caminhada, hoje integrada à própria coreografia como metáfora das trajetórias daqueles indivíduos que estão em cena, foi (e ainda é) uma estratégia poderosa de interação com o entorno do studio e com os trajetos que cada um de nós percorre pela cidade.

A memória em senha de acesso não é necessariamente antiga; é a de minutos, segundos atrás. É a da rua que se integra com a da casa, a dos momentos solitários associada ao caos da multidão. É até mesmo aquela que não existiu; a que inventamos, e que de tanto contar, lembrar, afirmar, tornou-se verdadeira.

COMO UMA LUVA

Lembro-me de um dos primeiros encontros em que o Aluisio usou a metáfora de “sacos de memória” enquanto conversávamos sobre como armazenamos nossas lembranças e como as acessamos depois. Passaram-se alguns encontros até que eu tomasse a iniciativa de comprar sacolas plásticas numa papelaria da praça e propusesse a ele uma sessão de improvisação. Nem lembro mais por que, mas naquela noite estávamos apenas os dois. Ele usou as sacolas de muitas maneiras diferentes, mas o “clique” só aconteceu quando, num dado momento, ele “calçou” uma delas como se fosse uma luva. Dali em diante, eu não consegui mais prestar atenção no restante da improvisação; sabia exatamente o que lhe proporia em seguida.

O fato é que as sacolas tornaram-se um elemento-chave do trabalho. E o momento do Aluisio continua marcante e mágico, assim como quando eu percebi que ele tinha encontrado algo especial naquela improvisação. Ali a dança começou a dar sinais de que estava chegando. Depois, no curso dos encontros, eu também me aproximei do mesmo material, o plástico, para construir o que se tornou o meu momento na coreografia.

O TEMA POR VIR

Houve, sim, um momento em que cogitei a possibilidade de não participar da pesquisa enquanto bailarino. Aluisio estava experimentando as sacolas plásticas, Monica estava sendo substituída[2] nos encontros pelo Fábio, que, a essa altura, já tinha pistas por onde seguir criando. E eu só via razão em minha presença “do lado de fora”, alimentando e guiando, dirigindo mesmo o processo. O assunto chegou a ser o tema de uma conversa com a orientadora Esther Weitzman. Em outras palavras, eu também precisei de uma certa dose de paciência. O tempo me mostrou onde eu deveria e poderia me inserir na coreografia.

Outra necessidade minha durante a pesquisa foi o esclarecimento constante de que a memória não era o tema de senha de acesso. A memória é a senha, quiçá, para o tema. Decidimos não nos importar em descobri-lo. Essa nem deveria ser uma questão; bastava saber que a memória era o ponto de partida, o estopim. Hoje, depois de compartilhar ensaios com visitantes[3], percebemos alguns temas sugeridos pelos mesmos quando nos descrevem o que viram, sentiram: tempo, a própria memória, um certo sentido de transformação, questões identitárias, desejo.

OS PRÓXIMOS PASSOS

Neste último mês demos início a uma fase de experimentação com vistas à composição coreográfica definitiva. Temos material bastante concreto, mas que ainda precisa de ajustes e aprofundamento. O fim da coreografia ainda está em aberto, por opção, para permitir que mais possibilidades venham à tona. Passos a serem conquistados no segundo semestre, quando estreamos o trabalho.


[1] Ver banco de memoráveis em http://senhadeacesso.wordpress.com/banco-de-memoraveis/.

[2] Fábio inicialmente se juntou à equipe para cobrir o período em que Monica estaria afastada em retiro espiritual. Após seu retorno, decidimos que ele deveria permanecer e integrar a coreografia.

[3] Um desses foi um ensaio aberto, realizado em 9/jul, no studio 2.

4 thoughts on “Até agora (so far, so good)

  1. Querido,
    Demorei um pouquinho até perder a vergonha para publicar o que me gerou a leitura dessa nova postagem e o que me deu vontade de escrever. Antes de tudo, obrigada por esse processo, por sua testemunha e por ser receptivo ao que tenho levado, ao que eu já estava escrivinhando cá no corpo antes de me recolher e entäo retornar, ver aquele experimento com Fabinho e decidir trabalhar com essa cartografia no Senha.
    Quando li essa nova postagem as primeiras coisas que me vieram foram: memória é realmente carne, músculo, pele, estômago, suor. Os tradicionais estudos psi e tantos estudos da neurologia associam à memória em geral aos neurônios, ao cèrebro, e numa relaçao hierárquica em relaçao a todo o conjunto do corpo. E todas as nem tao recentes metáforas computacionais sao tao redutoras do que é a experiência mnêmica. É tao complexo e simples ao mesmo tempo. É tao viva e pulsante que dificilmente caberá por muito tempo em qualquer recipiente. É tudo que somos e näo somos. Me lembrei agora por exemplo da situaçao que contei na semana passada das duas senhoras no Humaitá, que sao babás, e meu encontro com elas pela rua me remeteu imediatamente a algo que nem conheci pessoalmente, à história das amas de leite negras dos filhos de senhores. Isso em parte é tem uma dimensao muito particular – diz respeito a mim, ao que sou, ao que escutei, li, senti e olhei durante minha vida até hoje, à minha cor, minha ancestralidade, minhas relaçoes parentais, escolhas, modos de sentir, pensar e identificaçoes embora eu realmente nao saiba se uma das minhas ancestrais diretas foi uma ama de leite ou nao, e isso na verdade nao importa. Tampouco talvez seja uma imagem que as próprias senhoras possuem de si, e certamente nao define o que elas säo. Por outro lado, é uma imagem-sensaçao, imagem-questao disponível para surgir e afetar porque existiu, faz parte de uma certa memória coletiva, foi um acontecimento histórico. O que é interessante pensar também é que talvez isso nao surgisse no encontro de outra pessoa com as senhoras, porque essa referência e imagem que salta, que surge, nao faz parte do universo desta outra pessoa, de algo que está no corpo dela. E logo no mesmo dia incorporei ao mapa corporal. E me vem entáo uma imagem dessas entradas e saídas do corpo, dos poros, disso que se encontra e se configura quando alguns conteúdos e impressóes vêm à tona, vêm à superfície ao mesmo tempo que “entram”. Ou seja, sobre as ruas e as impressoes – a sensaçao que tenho em relaçao a esse encontro com as senhoras é como se algo entre eu e elas, algo do meu corpo encontrando-as faz “thchun”, “crac” se conecta. E aí se atualiza isso que na verdade conheci pelos livros, nao porque me foi contado, a nao ser por um bom professor de história que tive, e me faz lembrar nebulosamente aquelas fotos dos livros, e nitidamente de outras relaçoes similares ainda atuais que sempre me incomodaram e que sao questoes sociais e políticas até hoje colocadas. Enfim, deixei soltar aqui o carretel… me lembrei também de uma citaçao que já estou para comentar há algum tempo e nunca que fazia. Se nao me engano é do Franz Fanon, mas pode nao ser, melhor eu conferir, e que dizia que a “memória é o paraíso do qual nunca podemos ser desterrados”. De fato posso dizer por mim que depois que comecei a dançar de fato e a reverenciar minha ancestralidade com a importância que lhe é digna, nao posso mais ser desterrada. Um beijo querido, até amanhä! Ufa, vamos trabalhar!

  2. Pingback: senha de acesso: terceiro mês da pesquisa « andré bern

  3. Pingback: Post no portal da Secretaria de Estado de Cultura | senha de acesso

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