Com o objetivo de escrever uma matéria para o portal cultura.rj sobre o edital de Apoio à Pesquisa e Criação Artística da SEC-RJ, a repórter Vanessa Cristani fez algumas perguntas sobre o projeto. Abaixo, seguem as mesmas, respondidas por André Bern:
- Sobre o que trata o espetáculo ‘Senha de acesso’? Como surgiu a ideia?
senha de acesso é um espetáculo de dança contemporânea criado a partir de reflexões sobre as relações entre corpo e memória. A memória não é o tema do espetáculo, mas sim o ponto de partida da pesquisa. Estava interessado em retomar uma ideia de “rascunho” que desenvolvi ainda na graduação em Dança na UFRJ. A ideia era, de alguma maneira, revelar os bastidores da dança, o dia-a-dia de treinamento e ensaios de um bailarino, o que já considero bastante digno de apresentação, do palco. No espetáculo, isso se concretizou de maneira mais evidente na parte dançada por Fábio Honório. Claro que, ao longo da pesquisa de 7 meses, fomos tomando outras direções e desejando outras resoluções. Cada um dos parceiros na pesquisa (Aluisio Flores, Monica da Costa, Fábio Honório e a orientadora Esther Weitzman) contribuiu muito de perto. Desenvolvemos uma relação de muita intimidade, o que já era de se esperar por conta da memória como ponto de partida, mas que também implica muita “briga”, divergência e “equilíbrio dos pratos no ar”. Acho que passamos muito bem por toda a experiência e nossa integração é visível quando nos apresentamos.
- E por que você pensou na relação memória/sensações para o espetáculo? Isso mexe com você de que forma?
Tinha o desejo de continuidade de uma pesquisa que acreditava (e acredito) ser válida para a dança. Penso que sempre que a memória está em jogo nas criações em dança, há uma tendência a “representação” ou ilustração de experiências específicas dos bailarinos. Algo como “lembre de sua infância e dance para mim”, entende? Eu estava mais focado no que ocorre em termos de reações corporais, gestuais, quando fazemos esses acessos. Nesse sentido, a memória é a senha de acesso à qual o título do espetáculo faz referência.
- Como está sendo sua experiência neste novo projeto?
Estou muito feliz com a experiência proporcionada pelos 7 meses de trabalho. Feliz pela chance de concretização de uma ideia e, mais importante, por isso tudo abrir novas portas criativas e de divulgação do trabalho. Também me faz bem sentir que realmente é possível criar conjuntamente com outros artistas abrindo mão de uma noção mais tradicional do que é ser diretor, coreógrafo, proponente de um projeto. Ou seja, desestabilizando uma estrutura tradicionalmente verticalizada na direção de um espaço em que cada um seja consciente de seu valor no todo, e de suas responsabilidades também. Foi algo que fiz questão de ressaltar sempre que possível, desde o primeiro encontro.
- Qual a importância dos incentivos culturais a novos projetos e proponentes?
Fundamental a existência de incentivos como este que me foi concedido pela SEC-RJ. Deixo dois “recados”, aproveitando a oportunidade: 1) Artistas de uma nova geração da dança do Rio de Janeiro, como eu, precisam continuar sendo contemplados – há muitos talentos esperando uma oportunidade de mostrar e desenvolver sua potência criativa; e 2) Além dos incentivos a novos projetos, é de extrema necessidade uma política de continuidade daqueles já contemplados – de outra maneira, ficamos reféns da produção em série, do novo pelo novo, do começo da estaca zero a cada projeto escrito. Afinal de contas, uma verdadeira pesquisa artística não se faz em 7 meses. Levam-se anos para desenvolver o que convencionou-se chamar de “assinatura”, “estilo”, enfim, uma maneira própria de criar. É importante que a SEC-RJ também se interesse em criar mecanismos que possibilitem a essas pesquisas subsistirem, florescerem – através de novos projetos, mas não necessariamente.
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