Adriana experimenta memoráveis #1, #5 e #7

#7: Primeiro dia de encontro físico do “senha”. Muitas imagens e sensações. A mais marcante foi um memorável (não lembro o número) que consistia em escolher um momento marcante de uma coreografia e reproduzi-lo. Depois de determinado o momento, o exercício foi manter a forma por alguns instantes e ir desmanchando, cedendo à ação da gravidade, mas mantendo uma resistência. Ceder organicamente buscando conforto nas novas posições que se estabeleciam. (…) Fiquei de frente para a parede de pedra, olhando os veios cinza e branco que se misturavam a um barro. Dureza e flexibilidade. Os veios me levaram à ideia de caminhos e possibilidades dentro da própria rocha. A forma inicial não era muito confortável, com os braços em suspensão. Um dos braços, estendido, pesou primeiro, e fui negociando a descida do nível do braço pelo peso do ombro. O braço que estava acima da cabeça, encontrou apoio nela e ficou; no entanto, começou a formigar. Em um momento o braço estendido parecia não responder mais ao meu comando, e a musculatura começou a fazer contrações involuntárias enquanto ia descendo de nível. O incômodo maior foi da coluna, e o quadril entrou em alguns momentos para tentar aliviar a tensão. Um dos meus braços encostou na parede de pedra, e a temperatura fria foi extremamente agradável. A vontade foi grudar nela igual lagartixa, mas seria roubar na proposta, então me afastei da parede e deixei o meu corpo descer de nível. Tive que fazer um esforço intenso para manter a forma e não despencar. Meus pés se apoiaram no bordo externo, fiquei com medo de torcer o joelho e me quebrar. A posição era extremamente difícil. Fiquei pensando nos limites do corpo e da forma, e como fazer as mudanças necessárias de forma segura. A cada cessão, só piorava, apoiei nos punhos o peso do corpo todo. A dificuldade me fez ficar sem ar, aperto no corpo, aperto na alma, lágrimas vieram. Foi sofrido e turbulento! Depois de passado um tempo fiquei com uma sensação boa de ter conseguido testar limites. Foi um início muito bom!

O memorável é escrito com um verbo no infinitivo. É um convite e não uma ordem.

 

#1: Esvaziamos eu e Fábio nossas bolsas sem falar nada, só olhando e sorrindo. Minha bolsa estava cheia, para variar, mas nada de especial. Carregamos junto com os objetos nossas preocupações e neuroses. Como podemos nos delatar o tempo todo para os outros! A sorte é que a nossa sociedade é desatenta e na maioria das vezes passamos despercebidos com nossas questões. Será????? Fotografei nossos pertences e percebi que tinhamos coisas em comum: comida, água, óculos escuros, comprimidos…. Fiquei pensando no que Fábio pensava sobre o que via: minha lista de Hot Wheels, um milhão de comprimidos para diversos tipos de dores; e tudo ensacado, muitos sacos plásticos: para o livro, a água, os remédios, o biscoito, o MP3…. Jesus, que neurose!!!! Entre as coisas de Fábio encontrei um livro em comum do Rubens Alves, “Ostra feliz não faz pérola”, várias entradas de cinema…. Eu tinha que pegar um pertence dele e ele um meu. Do que vi me chamaram a atenção as camisinhas, eram muitas e de marcas diferentes. Peguei uma com uma embalagem rosa (que ele tinha repetida) e um guardanapo com uma inscrição culinária. Guardei na minha bolsa de remédio e depois rimos muito, pois disse que teria que explicar aquela camisinha ao Cláudio. Fábio pegou um envelope de Coristina.

#5: Comecei guiando Fábio de dentro do Centro Coreográfico, sem falar, apenas respirando e segurando-o pelo ombro. Depois de sair do elevador e do prédio, paramos no parquinho da entrada. A tarde caia, tinha nuvens amareladas no céu. Fábio não podia ver, mas podia sentir a tarde caindo. Havia uma leve brisa. Saindo do parque, atravessei algumas ruas com trânsito intenso, fiquei tensa com os carros e ônibus. Nessas horas pensamos nas pessoas que não veem: como se locomovem com segurança? Depois do trânsito veio a calmaria; entramos em uma rua residencial calma, sem muito movimento de carros, apenas tinha que tomar conta dos buracos e desníveis, e das pessoas que cruzavam nosso caminho. Foi tranquilo guiar Fábio e acho que ele se sentiu seguro, pois andava sem receio. No meu momento de ser guiada, vivenciei muitas coisas: segurança na insegurança. Andar no escuro total, só ouvindo os sons que pareciam me engolir (principalmente do trânsito) foi difícil, mas tinha a segurança de Fábio ao meu lado. O trânsito (ônibus, carros, buzinas e pessoas) é agressivo e assustador, impressionante como convivemos com ele diariamente sem nos dar conta disto. Senti muitos cheiros, graças à atenção de Fábio: paramos em uma obra (cheiro de cimento), fomos perto de um caminhão de lixo (chorume) e entramos em um hortifruti (cheiro delicioso de manga). Experiência incrível como cuidado do Fábio. As conversas e relatos das experiência dos memoráveis aconteceram num café. Falamos bastante do vento, experiência que tem me movido e me dei conta naquele momento, como o vento tem estado presente em minha vida. Desde o ano passado estou lendo a saga “O Tempo e o Vento”, do Érico Veríssimo: 5 volumes de muita história, muitas guerras, metáforas e muito vento. Lembrei que fiz uma anotação do primeiro volume (estou terminando o segundo). “Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo.” (fala da personagem Bibiana) Lembrei também de uma citação de Bachelard: “Os acontecimentos mais ricos ocorrem em nós muito antes que a alma se aperceba deles. E quando começamos a abrir os olhos para o visível, há muito que já estávamos aderentes ao invisível.” (D’ANNUZIO apud BACHELARD, “A Água e os Sonhos”, 2002, p. 18).

[Fábio Honório, Adriana Barcellos e André Bern]

*todos os trechos reproduzidos acima foram compilados do blog de Adriana.

“Passificadora” na mostra Novíssimos (RJ)

[crédito: Marina Pachecco]

Passificadora, performance solo minha que integra o espetáculo “Senha de Acesso”, será apresentada na mostra Novíssimos (Dança pra Cacilda – projeto de ocupação do Teatro Cacilda Becker (RJ)) amanhã, sábado e domingo (1, 2 e 3 /jun).

Compartilho a noite com a bailarina Gabriela Alcofra, que apresenta seu solo movimento.sem.face. A programação é toda gratuita. Clique aqui para mais detalhes ;)

Uma dica: quem conferir a gente amanhã (sexta-feira), vai pagar o valor promocional (R$15) da festa “Se Angel Dança, Eu Danço 2″, no Bola Preta (Centro). Legal, né?!

Dobradinha com Morena Paiva em Friburgo

A convite do professor Leandro Cristóvão, subimos a serra eu (André) e Morena Paiva, a fim de integrar a abertura do curso de especialização em Educação e Contemporaneidade do CEFET-Nova Friburgo em 12 e 13/ago.

Na sexta à noite (12), houve a aula de apresentação do curso, seguida de A ordem e o movimento, coreografia de Morena. No sábado pela manhã, apresentei a performance Passificadora, parte da pesquisa registrada neste blog, após a aula inaugural. No final, ainda tivemos a oportunidade de conversar com os alunos, compartilhar impressões.

 

Variação do memorável #5: vídeo

Variação do memorável #5, consiste de um jogo onde uma pessoa dança de olhos fechados enquanto outra(s) lhe serve(m) como guia, indicando os limites do espaço onde pode dançar.

No vídeo: Aluisio Flores, André Bern e Fábio Honório.

Conversa com Fábio via posts e comentários (2)

[atualizado]

Fábio:

Depois de ver ao vivo e depois da nossa conversa, fiquei pensando na coisa do desenho animado, do lúdico, da criança q imagina monstros e cria personagens monstruosos… E me veio a idéia de como ou o quanto isso influencia a criança, o adolescente, e o quanto os games violentos podem incitar a violencia e tal… Ou também, os monstros q às vezes nos tornamos quando adultos. Talvez esta cena possa caminhar por ai. Sabe, o q é bizarro e o q é lúdico?
Vou postar aqui dois vídeos , q é o mesmo vídeo em duas versões, o original e o editado com efeitos, q ilustram um pouco isso, neste caso, trata-se do Bullying. Não sei se vc já viu. Take a look: 1- http://www.youtube.com/watch?v=BWCP_0QAomQ
2- http://www.youtube.com/watch?v=Cg61KG2DQ_s

André:

Pois, é, Fábio… Bem, vamos por partes.

Não consegui ver o segundo vídeo… parece que foi retirado do YouTube por “violação das regras”. Humpf…

Realmente não tinha pensado nessa coisa toda do bullying, mas faz sentido se elementos lúdicos e bizarros (que, consequentemente, remetem a uma certa noção de violência) estão no jogo simultaneamente. “Quais são os limites entre o bizarro e o lúdico?” é a pergunta que ficou depois de ler seu comentário. E o primeiro vídeo, para mim, está nesse lugar também.

Já a questão do quanto imagens carregadas de violência podem estimular a concretização de atos violentos… uau, longa discussão essa! Lá no mestrado lemos um capítulo de um livro chamado “As imagens podem matar?”, da Marie-José Mondzain. Acho que já devo ter comentado sobre ele nos nossos encontros. Talvez seja uma boa ideia dar uma conferida nele de novo…

Fábio:

Pena vc não conseguir ver o segundo vídeo q se tratava da mesma cena, exatamente a mesma imagem, só q, com efeitos sonoros e visuais baseados no game “Street Fighter”. Ficou interessante… Me fez pensar sobre a banalização da violência, a agressividade q precisa ser trabalhada e bem canalizada desde a pré-adolescência no ambiente escolar e tal, e aí, entra a discussão sobre o atual modelo de educação já defasado, enfim, as pessoas precisam mais de corpo, sabe, de arte, ou de arte corporal. Bom, mas aí, entra o psicomotricista falando (risos).
Isso é uma grande discussão, nem acho q a cena vá exatamente pra esse lado de criticar a educação e tal, até porq é uma questão muito abrangente pra ser abordada numa única cena e acho q nem é bem esse o barato, não é? Mas, de qualquer maneira, q sirva ao menos de material, já q estamos ainda em fase de discussão e de experimentação.
Sobre o “As imagens podem matar?”, sim, sim, vc já comentou. E esse título agora, me lembrou do livro da Susan Sontag, aquele, ‘Diante da dor dos outros’ e q já me faz enveredar por outros caminhos ao pensar na imagem desse vídeo e nas imagens da sua cena. Vou colocar aqui um trechinho apenas, mas tem mais, e até fala um pouco de memória (não este q eu vou colocar aqui), depois eu levo o livro e te mostro. Eis o trecho:
“Deixemos que as imagens atrozes nos persigam. Mesmo que sejam apenas símbolos e não possam, de forma alguma, abarcar a maior parte da realidade a que se referem, elas ainda exercem uma função essencial. As imagens dizem: é isto o que os seres humanos são capazes de fazer- e ainda por cima voluntariamente, com entusiasmo, fazendo se passar por virtuosos. Não esqueçam.”
É isso. A isca certamente já taí, agora é só paciência – e ação, trabalho… – paciência ativa, não passiva – pra pescar o peixe, como diz o Lynch.

André:

Leva o livro da Susan Sontag na terça! Fiquei curioso…

De resto, sigamos atiçando os peixes ;)

Conversa com Fábio via posts e comentários

Fábio:

Depois de ver ao vivo e depois da nossa conversa, fiquei pensando na coisa do desenho animado, do lúdico, da criança q imagina monstros e cria personagens monstruosos… E me veio a idéia de como ou o quanto isso influencia a criança, o adolescente, e o quanto os games violentos podem incitar a violencia e tal… Ou também, os monstros q às vezes nos tornamos quando adultos. Talvez esta cena possa caminhar por ai. Sabe, o q é bizarro e o q é lúdico?
Vou postar aqui dois vídeos , q é o mesmo vídeo em duas versões, o original e o editado com efeitos, q ilustram um pouco isso, neste caso, trata-se do Bullying. Não sei se vc já viu. Take a look: 1- http://www.youtube.com/watch?v=BWCP_0QAomQ
2- http://www.youtube.com/watch?v=Cg61KG2DQ_s

 

 

André:

Pois, é, Fábio… Bem, vamos por partes.

Não consegui ver o segundo vídeo… parece que foi retirado do YouTube por “violação das regras”. Humpf…

Realmente não tinha pensado nessa coisa toda do bullying, mas faz sentido se elementos lúdicos e bizarros (que, consequentemente, remetem a uma certa noção de violência) estão no jogo simultaneamente. “Quais são os limites entre o bizarro e o lúdico?” é a pergunta que ficou depois de ler seu comentário. E o primeiro vídeo, para mim, está nesse lugar também.

Já a questão do quanto imagens carregadas de violência podem estimular a concretização de atos violentos… uau, longa discussão essa! Lá no mestrado lemos um capítulo de um livro chamado “As imagens podem matar?”, da Marie-José Mondzain. Acho que já devo ter comentado sobre ele nos nossos encontros. Talvez seja uma boa ideia dar uma conferida nele de novo…